Quarta, 10 Fevereiro 2021 14:32

Referências católicas que não te contaram sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021

A Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) é proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como parte do itinerário quaresmal em preparação para celebrar a Páscoa do Senhor. Em conjunto com as demais Igrejas-membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), a CFE 2021 é a quinta edição dessa iniciativa que fortalece a caminhada ecumênica da Igreja conforme o convite de São João Paulo II na carta encíclica Ut Unum Sint. O documento pontifício é uma das tantas referências católicas que uma leitura superficial e até maldosa pode não permitir encontrar. Mas o Portal da CNBB ajuda nessa tarefa.

A origem
A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa da Igreja no Brasil que, desde 1964, vem iniciando diversos processos de transformação à luz da Palavra de Deus como resposta do coração que se converte. Assim como Jesus ensina em Mateus 25, 40, a Igreja em Natal buscou há mais de 50 anos atender à necessidade urgente de famílias que necessitavam de alimento. E assim se seguiu colocando a caridade cristã em prática. Por meio da reflexão sobre a realidade à luz da Palavra de Deus, a Campanha da Fraternidade é um momento de convite à conversão no Tempo da Quaresma.

Conversão
E o texto base aponta para o chamado à conversão logo no início. Esse processo no centro da espiritualidade quaresmal “nos provoca a pensarmos e repensarmos cotidianamente nossa forma de estar no mundo”. Na busca pela conversão o convite é para refletir “como nos envolvemos com as transformações sociais, econômicas, espirituais, ecológicas, individuais e coletivas, a fim de que sejamos, cada vez mais coerentes com os ensinamentos de Jesus nos Evangelhos”.

O Catecismo da Igreja Católica ressalta as três formas de penitência interior do cristão ensinadas pela Escritura e pelos Padres da Igreja: o jejum, a oração e a esmola. Elas “exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros”. No parágrafo 1435, a Igreja ensina que “a conversão realiza-se na vida quotidiana por gestos de reconciliação, pelo cuidado dos pobres, o exercício e a defesa da justiça e do direito, pela confissão das próprias faltas aos irmãos, pela correção fraterna, a revisão de vida, o exame de consciência, a direção espiritual, a aceitação dos sofrimentos, a coragem de suportar a perseguição por amor da justiça”.

A CFE 2021, portanto, convida à conversão ao diálogo e ao compromisso de amor:

“A Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 quer ser um convite para viver um jejum que agrada a Deus e que conduz à superação de todas as formas de intolerância, racismo, violências e preconceitos. Queremos que nosso arrependimento contribua para assumirmos outras posturas em relação a cada pessoa que encontrarmos ao longo do caminho e que, ao longo dos 40 dias da Quaresma, nos perguntemos se nossa prática cristã promove a paz ou potencializa o ódio. Esperamos que este seja um tempo que nos ajude a testemunhar e anunciar com a própria vida que Cristo é a nossa paz, adotando comportamentos de acolhida, de diálogo, de não violência e antirracistas”, lê-se no texto base.

Seguimento a Jesus Cristo
Conversão, na realidade cristã também consiste em seguir a Jesus Cristo como discípulo. A CFE 2021 propõe uma trajetória que visa conduz a um reencontro com a vida de amor anunciada por Jesus. Ao refletir sobre o testemunho como pessoas batizadas, são feitas algumas perguntas: “Qual é o significado e o sentido do seguimento a Jesus? Associamos o nome de Jesus mais ao amor ou à intolerância? Nossa fé em Jesus Cristo tem contribuído para posturas de acolhida e de compromisso com as pessoas vulneráveis e vulnerabilizadas, pobres e excluídas e de comprometimento em projetos de superação das desigualdades?”

A fim de concretizar a oferta de Jesus “Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude” ( Jo 10,10), a Campanha da Fraternidade 2021 quer ajudar “a florescer a cultura da paz como consequência da transformação de todas as estruturas desiguais como o racismo, a disparidade econômica, de todas as formas de segregação, geradoras de conflito e violência”.

Assim como os discípulos de Emaús, cuja passagem bíblica conduz as reflexões da CFE 2021, todos são chamados a redescobrir Cristo no caminho e aprender que “a paz do Ressuscitado que nos une”. Como um dos modos de viver a espiritualidade quaresmal, a CFE convida as comunidades de fé a realizarem o caminho de Emaús, a partir das seguintes paradas de acordo com o padre Patriky Samuel Batista:

1. Contemplar a realidade com os olhos da fé;
2. Iluminar a realidade a partir do texto dos discípulos de Emaús e também da carta de Paulo aos Efésios;
3. Contemplar as boas práticas que já existem em favor do diálogo e olhar a realidade e perceber sinais concretos de um caminho dialogal;
4. Celebrar. A grande convivência entre as Igrejas Cristãs é o grande testemunho que nós podemos oferecer ao mundo.

Empenho Ecumênico
Ao contrário da visão negacionista em relação ao Concílio Vaticano II, sobre a qual o Papa Francisco já alertou recentemente – “Quem não segue Concílio não está na Igreja” -, a Igreja reconhece que «fora da sua comunidade visível, se encontram muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica ».

«Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica », afirma o Papa João Paulo II na Carta encíclica Ut Unum Sint – sobre o empenho ecumênico.

E é justamente esse documento católico que inspira a ação para recuperar a capacidade de dialogar e resgatar o diálogo como compromisso de amor. “Essa expressão ‘compromisso de amor’ se deve a São João Paulo II naquela carta encíclica Ut Unum Sint, onde o Papa nos exorta a testemunhar o diálogo como compromisso de quem ama”, recorda o secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Patrily Samuel Batista, na primeira videoaula sobre a CFE 2021. Para acessar uma formação edificante em vídeo sobre a CFE 2021, clique aqui.

Na encíclica publicada em 1995, São João Paulo II afirma que o empenho ecumênico deve fundar-se na conversão dos corações e na oração, “ambas induzindo depois à necessária purificação da memória histórica”. E ainda que “juntamente com todos os discípulos de Cristo, a Igreja Católica funda, sobre o desígnio de Deus, o seu empenho ecumênico de reunir a todos na unidade”.

“De fato, « a Igreja não é uma realidade voltada sobre si mesma, mas aberta permanentemente à dinâmica missionária e ecumênica, porque enviada ao mundo para anunciar e testemunhar, atualizar e expandir o mistério de comunhão que a constitui: a fim de reunir a todos e tudo em Cristo; ser para todos “sacramento inseparável de unidade” ».

O documento papal motivou iniciativas concretas no empenho ecumênico que, aqui no Brasil, resultou na primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica no ano 2000.

“Eu mesmo tenciono promover todo e qualquer passo útil a fim de que o testemunho da Comunidade Católica inteira possa ser compreendido em toda a sua pureza e coerência, sobretudo na perspectiva daquele encontro que espera a Igreja no limiar do novo Milénio, hora excepcional em vista da qual ela pede ao Senhor que a unidade entre todos os cristãos cresça até chegar à plena comunhão”, escreveu João Paulo II.

Quando se faz memória da caminhada ecumênica no Brasil, ganha relevo o aprofundamento da compreensão de que tanto a missão como a evangelização devem ser orientadas para o que é essencial na fé em Jesus Cristo: crer em sua palavra, acolher seus mandamentos e a partir daí trabalhar para a superação das desigualdades, das violências, do exclusivismo das identidades confessionais.

Oração
Em mais de uma ocasião, o texto base da CFE 2021 oferece ainda uma oração, de autoria do cardeal José Tolentino Mendonça, para este tempo de pandemia. O poeta português, criado cardeal pelo Papa Francisco, pede em sua oração o livramento do coronavírus, mas de tantos outros, como “o vírus do pânico disseminado, que em vez de construir sabedoria nos atira desamparados para o labirinto da angústia”.

Livra-nos, Senhor, deste vírus, mas também de todos os
outros que se escondem dentro dele.

Livra-nos do vírus do pânico disseminado, que em vez
de construir sabedoria nos atira desamparados para o
labirinto da angústia.

Livra-nos do vírus do desânimo que nos retira a fortaleza
de alma com que melhor se enfrentam as horas difíceis.

Livra-nos do vírus do pessimismo, pois não nos deixa
ver que, se não pudermos abrir a porta, temos ainda
possibilidade de abrir janelas.

Livra-nos do vírus do isolamento interior que desagrega,
pois o mundo continua a ser uma comunidade viva.

Livra-nos do vírus do individualismo que faz crescer as
muralhas, mas explode em nosso redor todas as pontes.

Livra-nos do vírus da comunicação vazia em doses massivas,
pois essa se sobrepõe à verdade das palavras que
nos chegam do silêncio.

Livra-nos do vírus da impotência, pois uma das coisas
mais urgentes a aprender é o poder da nossa
vulnerabilidade.

Livra-nos, Senhor, do vírus das noites sem fim, pois não
deixas de recordar que tu mesmo nos colocaste como
sentinelas da aurora.

Fonte: CNBB Nacional

 

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